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A ARTE DE ESCUTAR

Estamos vivendo em um período em que as coisas estão se apresentando com um ritmo mais acelerado do que o ritmo natural.


A era da informação e da agilidade, tem prometido “poupar tempo”, mas muitas vezes, à custo de coisas simples que nos são essenciais para a qualidade de vida.

Virtudes que são pilares para bons relacionamentos, e para o crescimento pessoal e coletivo, como a paciência e a empatia, são continuamente deixadas de lado em prol da realização instantânea, ou de metas imediatistas.


Observando com atenção, é possível notar como a nossa capacidade de escutar, tem se degenerado ao longo do tempo. Com raras exceções, estamos caminhando para uma ‘surdez em massa’. Onde o que eu tenho pra dizer, é sempre mais importante do que o outro tem a dizer. E assim, alimentamos um sistema de competição e excesso de informação. Onde ninguém escuta ninguém, e todos permanecemos reféns da carência de atenção. Ocupando um espaço de autovalorização de minhas ideias, em detrimento de um “cala-te boca” alheio. Veja só, que até mesmo os aplicativos de comunicação digital, nos deram a ideia genial de acelerar a mensagem de voz da(o) amiga(o). Quanto tempo economizado né? Afinal de contas... “ela(e) se enrola tanto pra falar...”

E por mais estranho que possa parecer, isso, muitas vezes, é somente um reflexo da forma como nos comunicamos com a gente mesma(o). Será que temos nos dado espaço pra nos expressarmos e nos escutarmos com integridade? Mesmo quando são pontos que não achamos bonitos ou dignos, em nós mesmos... será que temos exercitado a paciência pra entender mais profundamente o que aquela parte em nós está nos dizendo?

Seja lá como for, parece que, em certo grau, perdemos a percepção de que crescemos juntos. De que estamos, juntos, em crescimento. Que quando eu escuto inteiramente, eu não estou simplesmente perdendo tempo, estou na verdade, tendo a oportunidade de crescer, de muitas formas.

Um diálogo implica em duas pessoas colocando suas ideias, e que de alguma forma, consiga-se chegar numa ideia em comum. Como, geralmente, cada pessoa tem sua forma de pensar, é legal que cada qual exponha o seu jeito, e escute como o outro pensa, sem nenhuma reação, apenas com atenção real ao ato de escutar. Mas geralmente estamos acostumados a criar monólogos, onde eu falo a minha visão, e fico esperando (ansiosamente) o momento em que eu vou voltar a falar, voltar a me colocar e a reforçar minhas opiniões sobre determinado assunto. Tem nos faltado a ocupação, e talvez a humildade, de escutar o que o outro está falando de verdade, de tentar entender desde o ponto de vista dele, e reconhecer uma possibilidade, ínfima que seja, de que ele pode estar falando algo que seja em prol do meu próprio crescimento, também, nem que num primeiro momento, isso não fique claro.


Muitas vezes, acabamos por nos tornar mestres em fingir estar escutando, mas em verdade, pelo próprio apego à necessidade de reafirmar nossas ideias, enrijecemo-nos em nossas opiniões pré-concebidas, e tiramos a energia da fala da outra pessoa, não lhe dando o espaço necessário pra que ela desenvolva de uma forma mais profunda sua linha de raciocínio.


Então uma das dificuldades que estamos vivendo hoje em dia, é a capacidade de para e escutar de verdade. Uma escuta onde não haja mais nenhuma preocupação, a não ser escutar com inteireza o que o outro diz, ou tentar entender o que o outro está dizendo. E não ficar o tempo todo reagindo ao que está sendo falado, buscando formular as respostas para aquilo, de modo a poder confirmar e fortalecer o que penso. Uma escuta que se desassocie da disputa pelo poder. Uma escuta fundamentada na cooperação, e não na competição. Para isso precisamos de espaço interno, precisamos ser capazes de escutar a nós próprios mais profundamente.


A ideia de um diálogo, não é ganhar a discussão... e sim chegar na síntese do que está sendo dito. Então é importante que a gente termine a conversa, com a sensação de que “eu me modifiquei com essa conversa”. Não uma vitória egoísta de ganhar o debate, mas sim de que saí de uma conversa com limites mais amplos pra ver o mundo.


Para isso, é importante libertar-se dessa necessidade de “ganhar” às custas da inferiorização do outro, embasando a força da palavra, no apego às nossas próprias opiniões. O que nos impede de expandir as ideias a respeito de um tema.


Isso vale para qualquer coisa. Por exemplo, uma pessoa que não se acha racista, e tem um discurso mais ou menos assim... “não sou racista, tenho amigos negros, a menina que trabalha em casa é praticamente da minha família...” e a pessoa acredita realmente não ser racista. Então quando você começa uma conversa com essa pessoa a respeito do que você enxerga sobre o racismo, é importante que você tente chegar num ponto onde seja possível vocês se entenderem para além do apego às opiniões, julgamentos e conceitos. Onde a partir deste ponto, num próximo encontro, seja possível notar, em ambos, a diferença em suas noções sobre o tema... de uma forma que a continuidade do crescimento se torne mais importante do que a conclusão momentânea.


Você pode, por muitas vezes, praticar o fortalecimento de uma escuta empática, ao enxergar que a pessoa não consegue perceber determinados pontos que você já percebe, sobre este assunto. E que isso não a coloca num lugar inferior a você, pois pode ser que logo ali, tenha um outro assunto que ela esteja percebendo de lugares mais amplos que você. Citando a famosa frase do matemático e filósofo francês Blaise Pascal “Ninguém é tão sábio que não tenha algo pra aprender e nem tão tolo que não tenha algo pra ensinar.”


O que não é inteligente, é ficar “batendo na mesma tecla” ou até impondo um ponto de vista, porque aí você faz com que o outro reaja também, e a conversa não sai daquele mesmo ponto. Ou seja, a conversa termina com todos saindo do mesmo jeito que entraram. E a ideia não é essa. A conversa existe para que possamos trocar opiniões, crescer, encontrar sínteses e expandir as percepções. Para que a gente consiga reconhecer as limitações do outro, assim como as nossas, sem julgamentos. Temos que nos abrir pra escutar, e assim, sair um pouco melhor ou um pouco diferente de como entramos no início da conversa.


Isso é andar para a frente, se não, é só estagnação.

Em um momento como o que vivemos de polarizações... onde cada um tem seus conceitos e pontos de vistas bem definidos e consolidados, acaba que passa-se muito tempo “batendo o pé” pra defender aquilo que já se sabe. Ao invés de criar novos espaços pra aprender a partir de uma escuta mais aprofundada. Isso cria rigidez, e não leva pra lugar nenhum. Mesmo eu achando que eu tenho razão, eu tenho que mudar meu ponto de vista, no mínimo, o bastante pra conseguir acolher o outro e aceitar que o ele está vendo por outro ponto de vista. E que nem eu, nem ele, somos donos de toda a verdade. Assumindo assim uma postura de não violência, onde não é necessário nenhum tipo de agressividade pra defender ou atacar essa ou aquela ideia.


A arte da escuta é sobre refinar, não só a forma como nos colocamos diante do mundo, mas também, a forma como trazemos as experiências do mundo para diante de nós, e o que fazemos, ou não, com elas. É também sobre a disponibilidade de se colocar aprendiz da vida, e reconhecer que sempre há aprendizado pra você, em toda e qualquer circunstância.

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